Como nossos pais

Ganhei meu primeiro quarto aos 18 anos. Durante toda a minha infância, dormi em cômodos coletivos, sempre havia um parente a abrigar, algum momento em que a casa, que já não é muito grande, seria dividida para assentar mais pessoas. O que importa é que no final das contas eu nunca tinha um canto só meu, cresci me acostumando com a presença de outras pessoas quando me preparava para dormir. O golpe falta foi quando a casa foi dividida em duas por tempo indeterminado, pois minha prima havia tido seu primeiro filho.

Vivi longos anos dormindo em várias partes da casa: o quarto dos meus pais, a sala, a varanda (principalmente em dias de calor) e até mesmo no banheiro, devido as bebedeiras. Mas a vida é inconstante e cheia de mudanças. No final de 2006, minha querida mãe parece que percebeu que meus parentes não sairiam da segunda parte da casa, então em um momento de estrema raiva, ela decide que dividiria a casa de vez, deixando-nos assim com apenas um quarto, uma grande garagem, um quintal médio, uma sala pequena, um banheiro minúsculo e uma cozinha menor que caixa de sapato. Sim, eu chorei nesse dia, mas no fundo fiquei feliz, porque sabia que o termo: “casa de noca”, haveria de acabar.

O tempo passou e minha nobre progenitora foi reformando a casa, fazendo da mega garagem uma mega cozinha, o médio quintal em uma pequena garagem e, o principal: a pequena cozinha em o que hoje chamo de minha caixa de fósforos, que seria na verdade meu quarto, mas que pelo tamanho, não pode ser considerado como. O tempo, senhores, provou ser mais um grande aliado, isso é claro, com a ajuda dos créditos fáceis que os bancos estão cedendo.

“Mas porque um post falando sobre a sua casa Breno?” Vocês perguntariam. Bem é fácil de explicar. Nesse ultimo final de semana tive grande surpresas, tais como: meu computador novo (feliz, feliz, feliz), a reforma que vai rolar no quarto dos meus pais e o fato de que eu teria que ajudar na arrumação do quarto para a reforma, ou seja, poeira e mais alergias.

Fico feliz por mamãe e papai ganharem um quarto novo, mas meu lado egoísta, tem que perguntar: o que meu nariz alérgico tem haver com isso? O fato é que não tinha como fugi dessa obrigação e eu teria que arrumar, com poeira ou sem poeira. E é justamente nesses momentos de obrigação, que as coisas mais legais aparecem, pelo menos para mim.

Mexendo em uns papeis velhos acabei encontrando as agendas e diários da minha mãe, que ela começou a escrever quando ficou grávida. Tinha coisas que eu não deviria ter lido, por pura questão de interesse próprio, mas fico feliz de saber que fui muito bem esperado. Ela, minha mãe, deixa bem claro em quase todos os textos que me espera e não que sou um acidente. Também deixa bem claro que no inicio de toda essa epopéia que é minha pequena e conturbada vida, eu já demonstrava certos aspectos um pouco diferenciados, acredito que era até mais inteligente, pois li umas frases que ela anotou e sempre do lado com meu nome. Minha mãe não é aquele tipo de matriarca coruja, que ama seu filho incondicionalmente, acho que até existem condições de mais, mas no fundo gosto dessa postura.

Passei muito tempo reclamando dos pais que tive, de ter nascido pobre e negro num pais que bebe hipocrisia e transpira preconceito, mas hoje sei que tive sorte de nascer em uma família que sempre me estimulou, com pais que sempre se importaram com o que acontecia comigo, mesmo que seja só o medo de que no futuro eu me esqueça deles. Então, post criado só para agradecer pelos pais que tive.

14 Comentários:

Maicon disse...

É meu filho, "você seu pais por tudo, isso é absurdo são crianças como você e o que você vai ser quando você crescer?"

legal esse novo posto, continue assim

Mary West disse...

Ain que linda a historia da agenda. Quase um querido diário de gravidez, deu-me até curiosidade de sair revirando as coisas aki em casa tb. ;)

E me diga qual o filho que dá valor aos pais? Soh sabemos mesmo quem eles são depois que nós ficamos com o lugar deles.

Assim que sou disse...

Te leio pela primeira vez e me reconheci no outro lado do papel. Meus filhos foram muito esperados e, não raras vezes, já relataram o conforto de assim terem chegado. É bom isso. Acho que essas escolhas, opções, caminhos não são feitos para os elogios no final. Mas se é assim que se apresenta, porque não curtir.

Legal teu texto. Veronica

Grahan disse...

O mais legal disso tudo é que ainda vemos pessoas que não acham careta amar os pais... É bom quando o sentimento que eles nos passam ajudam a nos tornar um pouco felizes, nem que seja pra penar um pouquinho com a alergia...

Grahan disse...

É legal saber que ainda existem pessoas que não acham os pais caretas e que lembrar dos sentimentos deles pelos filhos ajudem a nos deixar mais felizes.
Muito bom, cara!

Desarranjo Sintético disse...

Bah! Essa história de reforma...é um saco! Um caos...eu já ajudei parelho...As vezes eu imaginava também, porque eu tinah que ajudar, mas sempre pensei que devia ajudar, afinal era para mim também e tal.
Bah, sabe que eu nem tinha percebido que tu era negro...para mim tu era o Breno e pronto, e pela tua inetligência, assim, via blog, não dá para perceber, a nãe ser que tu diga que tu era pobre. Para ti ver que o povo é preconceituoso, eles acham que cor ou classe social pode afetar a inteligência e tudo o mais...
Muito legal tu homenagear teus pais, são poucas as pessoas que têm essa consciência, que acabam vendo que no fim eles só queriam nos proteger...
Quanto aos inventos, se ajudarem a facilitar a vida de algum deficiente, realmente valeria a pena, não tinha pensado por esse lado...Mas de qq forma, para ligar coisas enquanto estiver fora de casa, não é muito útil, sem contar que é perigoso...
Que bacana o diário, eu acho o máximo, adoro biografias, acharia o máximo se minha mãe tivese algo nesse estilo.

Abraços!
Fábio!

Desarranjo Sintético disse...
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★. Marii .★ disse...

Nossos pais realmente fazem de tuuudoo pela gente, né?! pena que a gente demooore a perceber, às vezes. Tenho consciencia de tudo que meus pais fizeram e ainda fazem por mim, mas sou um pouco mal agradecida, mas não de propósito.
minha mae me da tanta atenção que chega a sufocar. mas, vai ver que se eu nao tivesse atenção, reclamaria tambm. é, bm estranho isso ;x
beeijoo!
;***
ta ai a prova de que, com o tempo, a gente constroi tudo o que quer... literalmente! ;)

Anônimo disse...

uma coisa de cada vez...

Passei por essa experiencia de reforma esses dias. Lado egoísta se chama instinto de sobrevivência viu bem!

Poxa, queria que a minha mãe tivesse escrito diários também. Provavelmente ela iria relatar como doía carregar um bebê que ficava na posição invertida.
Eh, melhor ela sem tempo, correndo muito e não escrever nada mesmo.

Muito bom saber que quando todos viram as costas pra você, seu núcleo social e afetivo primeiro se chama família né?
Nem sempre todos dao a sorte de encontrarem uma que seja tão boa...
A minha é meio deficiente. Descobri na pele que abandono dói. Por isso desde sempre dei valor naquela que me cria com todo seu sangue e amor.
Talvez seja por isso que eu sumi por esses dias. Minha rotina agitada, minha ansiedade por um diploma e trabalhar tanto...É puro reflexo da minha criação.

A propósito, queria dizer que vc, cada vez mais, me faz sentir mais feliz de vir aqui ler um pouco sobre vc.
Continue sempre assim: em tranformação, inspirado e inteligente!

ps: desculpe pelo sumiço ok?

***

Anônimo disse...

egoísmo em tempos de reforma se chama instinto de sobrevivencia meu bem!Eu sei bem o que vc está passando...

Família é legal mesmo. Alguns nao tem a sorte de nascer uma bacana, outros se adaptam (como eu! =D )

Fico feliz em saber que vc pensa assim. E que tem de onde puxar essa veia literária!^^

Continue assim sempre!Fico esperando sempre o próximo post pra vir aqui!

Apesar de contraditório, mas tá valendo: desculpe a ausência viu?Logo logo eu me arrumo com esses meus horários loucos!!!

bjs

***

TOOP disse...

Rapá... você é amado. Mesmo em sua caixinha de fósforo.

Cuidado com as alergias por aí. E... sorte com os tesouros escondidos.

=]

Tanmi Morais disse...

nooossa, parabéns breno!

que liiinda a sua história (...)
mas lindo ainda o que teus pais te ensinaram; e que vc aprendeu tão bem :D

me tocou teu post (...)

; beeijo:*

Flávia Batista disse...

é muito legal quando a gente baixa a guarda, olha no mais íntimo do nosso redor e vê que talvez não tenhamos tantas razões para reclamar né?!

bjao

Flávia Batista disse...

é lindo quando paramos para refletir sobre o mais intimo do nosso redor e vimos que talvez não tenhamos tantas razões para reclamar não é?!


bjao