Cemitério das cartas
Certas vezes escrevo cartas às pessoas que estão longe de meu alcance, mas uma coisa curiosa que acaba acontecendo é que eu nunca entrego as cartas que quero enviar, elas acabam ficando em um pote que eu chamo de cemitério das cartas, porque ali fica tudo o que eu escrevo e logo depois o desejo de entregar morre. Acho que na verdade é sua minha mente querendo materializar o sentimento que está contido.
Porém como essas cartas nunca serão entregues, nada mais justos que postá-las.
Querida L,
Desculpe-me pelo o que faço nesse instante. Você sabe muito bem que cartas ou sentimentalismos não são do meu feitio, porém escrevo, pois tenho pensado muito em você nesses últimos dias. Faz menos de um mês que você foi para essa sua nova “missão”, mas para mim é como se fizesse mil anos que não te vejo, que não vejo seu sorriso ou sua cara de zangada, que não venho sua “meia boca” destinada as minhas piadas sem graça. Enfim, a saudade está quase me sufocando e dessa vez não é como antes, quando eu decide que ficaria longe. Agora é você quem está longe e eu não posso fazer nada para te trazer de volta, e, sendo sincero, não seu ao certo se quero lhe trazer de volta, mais pelo fato de saber que uma mera aproximação contigo, faria com que eu voltasse a ter aquele sentimento confuso.
Por aqui estamos todos bem. Eu trabalho cada vez mais, o Thiago está cada dia mais apaixonado pela Gisele e como faz um tempo que o pessoal não se reúne, não sei ao certo como estão todos, mas sei que todos sentem a sua falta assim como eu.
Gostaria de ter notícias suas, saber como você está encarando o militarismo, se você obedece logo de cara ou se continua encarando os outros com o mesmo gênio indomável de sempre. Juro que não deixei de pensar em você um só dia, até minha mãe e meu perguntam por você, ela diz: “Cada a minha norinha?”, e eu tenho que lembrar a ela que nós não tivemos nada, só que velha sempre responde: “Não tem problema. Ela é minha norinha de coração.”
Comecei a carta com desculpas, então vou terminar com desculpas. Me perdoe por não ter ido à sua despedida. Agora que você está longe, posso dizer eu não compareci, pois tinha medo de ter que olhar uma ultima você e acabar tendo certeza de tudo aquilo que lhe falei quando estávamos sentados no banco enfrente ao parque. Sei que fui egoísta, mas não posso suportar mais essa facada no pedaço de gelo que chamo de coração.
Você se foi como minha amiga, e quando voltar vai continuar sendo a minha melhor amiga.
Do chato que lhe perturba,
B.

